Repúdio ao relatório técnico sobre as Escolas em SP

Um post breve, apenas para manifestar o profundo DESPREZO e REPÚDIO que sinto acerca do relatório técnico intitulado “Escolas Estaduais com uma única etapa de atendimento e seus reflexos no desempenho dos alunos“, produzido pela Coordenadoria de Informação, Monitoramento e Avaliação Educacional (CIMA), da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo.

Acho que eu nunca tinha visto algo tão mal feito, sem critério e ideologicamente enviesado assim…

O argumento principal do relatório é o de que uma estrutura de gestão menos complexa seria melhor para o desempenho escolar. Mas desde quando a oferta de níveis de ensino é uma medida SUFICIENTE de organização e gestão das escolas? E o corpo técnico e administrativo? E os organismos e estruturas de tomadas de decisão? E mais: DE ONDE VEIO ESSA IDEIA!? Quais estudos embasam essa hipótese?

O Inep tem um indicador de complexidade da gestão, que de fato inclui o número de ciclos ofertados como um dos componentes da escala, mas há outros quesitos. Além disso, abertamente reconhece-se, ao lado das potencialidades, os limites de tal escala:

“O indicador de complexidade de gestão das escolas resume em uma única medida as informações de porte, turnos de funcionamento, nível de complexidade das etapas e quantidade de etapas ofertadas. A gestão da escola certamente envolve outros fatores e dimensões não contemplados aqui, entretanto, verifica-se que, mesmo com poucos aspectos contemplados na sua construção o indicador apresenta potencial para contextualização dos resultados das avaliações. O INEP estuda a inclusão de novos quesitos no Censo Escolar visando o aprimoramento deste e de outros indicadores que contribuem para a avaliação do contexto da oferta educacional no País”.

Além desse indicador, o Inep ainda classifica as escolas segundo: nível socioeconômico (Inse), adequação da formação docente e esforço docente. Certamente complexidade da gestão é uma variável importante. No entanto, certamente não é suficiente e nem mesmo temos indicação de que está sendo medida de forma adequada no relatório do CIMA — que nem sequer menciona a existência daquele índice ou define de modo satisfatório a noção de “complexidade da gestão”.

Nas primeiras sete páginas daquele realtório, os autores apresentam os MESMOS DADOS 5 VEZES (uma tabela de frequências, univariada), alterando apenas a forma de agrupar categorias!! Como se, de tanto repetir, fosse aparecer algo diferente.

Mas os problemas são vários:

  1. Não há nenhuma variável de controle. Todas as análises são univariadas ou bivariadas. Não dá pra dizer absolutamente nada sem controles sobre características familiares, características da vizinhança, formação dos professores, aspectos da infraestrutura da escola e variáveis que verdadeiramente digam respeito à gestão.
  2. Não há qualquer referência a nenhum tipo de estudo sobre desempenho dos alunos previamente realizado (e essa é uma literatura enorme). Na ciência, qualquer estudo isolado deve ser alvo de desconfiança. Os achados se estabelecem quando há embasamento em outros achados, convergência de resultados e possibilidade de replicabilidade ou reprodução. Os autores não citam sequer como obter os dados que utilizaram.
  3. Um único indicador é utilizado como variável dependente, o IDESP – que mede desemprenho nas provas do SARESP e Taxas de Aprovação. Há várias medidas de desempenho escolar: (não-)evasão, proficiência em Português e Matemática (medidos inclusive por outras avaliações, como o SAEB-Prova Brasil), o IDEB. O IDESP é o mais obtuso dos indicadores; SUA BASE DE DADOS NEM MESMO É PÚBLICA!!!

E mais: o desempenho, conforme medido em provas é a única coisa que essa política visa maximizar? Educação não é só isso… e não se faz política com um único indicador, Sr. Governador e equipe técnica envolvida na proposta de reestruturação.

Me disponho a dar aulas de Estatística, Econometria, Sociologia da Educação e uso de bases de dados educacionais para esses técnicos de araque da Secretaria Estadual de Educação. E de graça.

***

Um adendo: só pra ilustrar a necessidade de incluir variáveis de controle, é bom reproduzir aqui o breve e excelente post no Facebook feito por Amanda Rossi (original aqui):

A reestruturação escolar é baseada em uma correlação: quanto menos ciclos de ensino, maior a nota da escola. Mas o número de ciclos é apenas uma variável. Há muitas outras que precisariam ser analisadas. Seria interessante, inclusive, estudar o peso de casa uma, para saber qual pode ser a mais determinante na qualidade do ensino. Quer uma amostra de outras variáveis relevantes? Vamos falar da variável socioeconômica.

Analisando os dados das escolas da cidade de São Paulo, descobri algo instigante. As escolas de 3 ciclos – que têm as piores notas, segundo o governo – ficam localizadas principalmente na periferia. São os pontos vermelhos no mapa. Acrescentei ao mapa as áreas de ZEIS-1 da nova Lei de Zoneamento. São as manchas vermelhas. As ZEIS-1 são favelas, ocupações irregulares, assentamentos precários (alguns em área de risco).

Notou uma coincidência absurda entre a localização das escolas de 3 ciclos e as áreas de ZEIS-1? O que isso significa? Que as escolas de 3 ciclos em São Paulo estão concentradas em áreas de maior vulnerabilidade socioeconômica. Dá para desprezar essa variável e dizer que as escolas de 3 ciclos têm pior desempenho simplesmente porque têm 3 ciclos?

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