O espaço de similaridade das pesquisas centradas no ator

[Post de Daniel Little, publicado originalmente em inglês no blog Understanding Society. Tradução para o Sociais & Métodos feita por Thiago Rodrigues Oliveira]

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Há um determinado número de abordagens no estudo do mundo social que conferem prioridades especiais aos indivíduos em contextos sociais. A Teoria da Escolha Racional (TER) e a Teoria dos Jogos (Becker, Harsanyi) buscam compreender eventos sociais como o resultado de estratégias e cálculos de atores racionais. A Sociologia Centrada no Ator (SCA) e a teoria pragmatista buscam adentrar em um conhecimento profundo dos quadros e dos modos de ação dos atores (Goffman, Gross). A Sociologia Analítica (SA) busca resolver a lógica do barco de Coleman ao mostrar como fatores sociais de nível macro influenciam o comportamento de indivíduos e como fatores de nível macro resultam de interações entre indivíduos no nível micro (Hedström, Yilikoski). E agent-based models (ABM) trazem sistemas computacionais para representar as formas complexas de interação que ocorrem entre indivíduos levando a eventos sociais (Axelrol, Manzo).

Essas quatro abordagens parecem seguir uma mesma estratégia básica: deduzir eventos sociais a partir do que sabemos sobre os modelos de ação e da composição dos indivíduos que produzem o contexto social. É tentador ver essas quatro formulações distintas como a mesma abordagem básica. Mas isso seria um erro. A distância científica entre Hedström e Goffman, ou entre Goffman e Becker, é grande. TER, SCA e SA trazem pressupostos diferentes para o estudo de atores e diferentes pressupostos sobre o que a explicação social demanda. São distintos paradigmas de pesquisa que geram tipos de produtos de pesquisa qualitativamente distintos. E ABM é uma ferramente que pode ser empregada em cada um desses quadros, mas que melhor se adequa à TER e à SA.

Essa figura quer dizer que abordagens centradas no agente tem mais coisas em comum umas com as outras do que com outras importantes estratégias de metodologias de pesquisa em ciências sociais. É possível codificar essas intuições de alguma maneira? E é possível listar as relações lógicas e pragmáticas que existem entre essas abordagens?

Segue aqui uma tabela que representa alguns dos principais pressupostos metodológicos e ontológicos de cada um desses quadros de pesquisa:

Sociologia Centrada no Ator Sociologia Analítica Teoria da Escolha Racional
Eventos sociais derivam de ações de atores socialmente constituídos em relação uns com os outros Explica eventos como o resultado agregado de ações e interações de indivíduos intencionais Indivíduos se comportam como agentes economicamente racionais. Explica eventos como o resultado agregado dessas ações
Atenção às “grandes” teorias do ator Quadro desejo-crença-oportunidade para atores Racionalidade econômica restrita: preferências consistentes e maximização das utilidades
Atores são formados por relações sociais nas quais eles desenvolvem Modelos causais; comprometimento com a abordagem de mecanismos causais Modelos de equilíbrio: comprometimento com soluções matemáticas de problemas de escolha bem definidos
Contas narrativas do desenvolvimento de eventos sociais geram ações dos atores Preferência pelo barco de Coleman: explicação acontece do micro ao macro e do macro ao micro A Teoria dos Jogos é usada para representar interações entre agentes racionais
Agnóstica sobre fundamentos micro Fortemente associada aos fundamentos micro Fortemente associada aos fundamentos micro

Como se pode pensar as relações que existem entre essas abordagens de pesquisa? Muitas possibilidades existem. O primeiro diagrama representa um espaço de abordagens de pesquisa a tópicos de sociologia em ternos de um diagrama de Venn. U é o universo de de abordagens de pesquisa. A, B, C, e D são abordagens que caem dentro de “Sociologia Analítica”, “Teoria da Escolha Racional”, “Sociologia Centrada no Ator” e “Agent-Based Models”. Cada uma dessas famílias de abordagens de pesquisa foi discutida em posts anteriores, linkados acima. A sobreposição nos conjuntos devem representar a intersecção entre os grupos selecionados: abordagens centradas no ator que usam pré-requisitos da teoria da escolha racional; abordagens da sociologia analítica que usam pré-requisitos da SCA; esforços de pesquisa nos três conjuntos que usam modelos baseados no agente; etc.

O segundo diagrama traz um esforço inicial de identificar aspectos que distinguem essas abordagens em uma estrutura dicotômica. SA e TER compartilham as características de fundamentos micro, enquanto a abordagem fenomenológica não. Esta enfatiza a necessidade por “grandes” teorias do ator, enquanto SA e TER favorecem teorias “magras”. SA distingue o pressuposto de Desejo-crença-oportunidade dos pressupostos mais restritos da racionalidade econômica. E SA está mais interessada em identificar mecanismos causais do que qualquer outra alternativa, enquanto a abordagem fenomenológica favorece narrativas e a TER favorece a criação de modelos de equilíbrio. A linha final desse diagrama traz instâncias de paradigmas explicativos das várias abordagens — notas de Goffman sobre comportamentos sociais em um restaurante, o barco de Coleman, a análise formal do dilema do prisioneiro e a tabela de Skocpol de eventos revolucionários.

Aqui segue uma outra abordagem possível, que pode ser descrito como uma visão “ecológica” das metodologias. Em um post recente eu argumentei que nós podemos pensar um quadro de pesquisa como consistindo de um pequeno conjunto de “genes” (pressupostos metodológicos e ontológicos), os quais depois geram o “fenótipo” dos produtos de pesquisa nas mãos dos grupos de pesquisadores (link).

Nesse sentido, SA e TER compartilham um número de genes e estão abertas a emprestar elementos adicionais no futuro por meio de colaboração de pesquisa (contatos inter-espécies). Cada uma compartilha alguns dos principais pressupostos da SCA, mesmo que postulem estratégias explicativas e teóricas bastante distantes daquelas praticadas pela SCA. As duas “espécies” de quadros de pesquisa estão proximamente relacionadas e prometem estar ainda mais no futuro. Mas ao mesmo tempo a SA pode se tornar um genótipo mais robusto para a pesquisa sociológica ao compartilhar componentes genéticos com seu parceiro ecológico, SCA. Finalmente, por essa medida todas essas três abordagens estão a alguma distância das outras principais abordagens na sociologia: survey, pesquisa quantitativa, pesquisa comparativa e estudos organizacionais.

Eu gostaria de argumentar que a sociologia analítica é intelectualmente ampla o suficiente para abranger entendimentos e métodos essenciais da TER e da SCA como teorias distintas do ator, e que ABM é uma metodologia formal que se adequa bem a um componente do modo de explicação da SA, o componente agregativo (o suporte crescente do barco de Coleman). AB, não é limitada a modelos econômicos do ator e pode incorporar tantos detalhes sobre o ator quando o modelador escolher; assim SCA e achados pragmatistas podem ser incorporados a modelos ABM com o possível custo de perda da determinação do evento final.

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3 respostas em “O espaço de similaridade das pesquisas centradas no ator

  1. Muito boa a explanação sobre as abordagens. Me interesso em saber mais sobre coleman e a SA. Conhece algum professor no Rio de Janeiro que trabalhe com essa abordagem?

  2. Pingback: Cachorros artificiais: agentes de agent-based modeling usando R (Parte 1) | SOCIAIS & MÉTODOS

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