Superando o calcanhar metodológico: o ensino de métodos em ciência política no Brasil

Como anda o ensino de métodos em ciência política no Brasil? Essa questão vem atormentado todos aqueles que se preocupam com metodologia na área já há algumas décadas. O trabalho de Gláucio Soares, “O calcanhar metodológico da Ciência Política no Brasil” (2005), foi um trabalho de referência e já mostrava algumas deficiências da formação metodológica dos cientistas políticos.

A questão que fica é: essa situação se alterou de 2005 para hoje? Esse problema foi enfrentado por dois amigos, Danilo Praxedes Barboza e Samuel Ralize de Godoy, no artigo que divulgamos aqui, “Superando o ‘calcanhar metodológico’? Mapeamento e evolução recente da formação em métodos de pesquisa na pós-graduação em Ciência Política no Brasil”. O texto foi apresentado no IV Seminário Discente da Pós-Graduação em Ciência Política da USP, em abril deste ano, e discutido na mesa que contou com a participação dos professores Lorena Barberia e Adrian Gurzan Lavalle, do Departamento de Ciência Política da USP. Os autores realizaram um mapeamento do ensino de métodos em ciência política e trouxeram algumas conclusões interessantes.

O trabalho fez um levantamento de todas as disciplinas de formação em metodologia de pesquisa oferecidas pelos cursos de pós-graduação em Ciência Política no Brasil. Os autores utilizam como fontes de dados as relações nominais de ementas fornecidas pelos programas à CAPES, órgão do governo federal responsável por avaliar a qualidade dos programas de pós-graduação no País.

Entre as descobertas:

1) Houve pouca variação na oferta total de disciplinas nos programas de ciência política no tempo. “Em média, o número total de disciplinas oferecidas pelos programas em 1998 era de 12,4, quando havia apenas oito programas (IUPERJ/UCAM, UFF, UFMG, UFPE, UFRGS, UNB, UNICAMP e USP). Em 2012, último ano da série, a oferta atinge o índice de 14,5 disciplinas oferecidas, em média, pelos 15 programas (com a inclusão de FUFPI, UFPA, UFSCAR, UFPR, UERJ, UFPEL e UFG).” Em compensação, a oferta de disciplinas relativas à metodologia aumentou relativamente, variando de 1,5 em 1998 para 1,67 em 2012, atingindo picos de 2,25 e 2,36 em 2006 e 2008, respectivamente.

Fonte: Elaborado pelos autores a partir de dados da CAPES (2014). Nota: O eixo vertical  direito orienta a linha verde, que indica a oferta relativa de disciplinas metodológicas (%).

Média de disciplinas oferecidas, 1998 a 2012 Fonte: Elaborado pelos autores a partir de dados da CAPES (2014). Nota: O eixo vertical direito orienta a linha verde, que indica a oferta relativa de disciplinas metodológicas (%).

2) Em relação à oferta de disciplinas metodológicas por programa, entre “programas tradicionais” (aqueles que já existiam em 1998) e “programas novos”, temos os seguintes resultados.

Entre os “programas tradicionais”, UFMG, UFPE e IUPERJ/UCAM são as universidades de maior destaque na oferta de disciplinas metodológicas. “A federal mineira salta de 8% de disciplinas metodológicas em 1998 para 29% em 2012, assumindo posição de destaque em 2006, quando 23% das disciplinas oferecidas eram de caráter metodológico. A federal pernambucana, que oferece quatro disciplinas metodológicas anuais desde 2003, tem índices que variam de 11% (1998) a 24% (2012). Já o IUPERJ/UCAM, com 26% de disciplinas metodológicas já em 1998, tem grande oscilação dessa oferta no tempo. A partir de 2001, a oferta de disciplinas metodológicas ficou abaixo dos 20%, mas ainda em posição alta em relação aos demais programas tradicionais (exceto UFMG e UFPE), assim permanecendo mesmo após a crise institucional que acarretou a troca de todos os seus professores. Os demais programas, independentemente de como começaram a série histórica, ofereceram menos de 10% de disciplinas metodológicas em 2012, com exceção da USP, que apresenta tendência de aumento da oferta no final da série, com 14% de disciplinas metodológicas, próximo à oferta contemporânea do IUPERJ/UCAM.”

 Oferta de disciplinas metodológicas, programas tradicionais, 1998 a 2012

Oferta de disciplinas metodológicas, programas tradicionais, 1998 a 2012

Entre os “programas novos”, “os cadernos de indicadores mostram que a oferta
relativa de disciplinas metodológicas de todos eles varia entre 5% e 15% em todo o período – com exceção do programa da UERJ, formado pelos ex-professores do IUPERJ/UCAM, com 20% em 2010 e 17% em 2012 – e todos apresentam tendência decrescente nessa oferta.”

 Oferta de disciplinas metodológicas, programas novos, 2008 a 2012

Oferta de disciplinas metodológicas, programas novos, 2008 a 2012

Os autores também investigaram as relações entre o conceito CAPES dos programas e a oferta (Vale consultar o Paper).

3) Por fim, as disciplinas ofertadas foram classificadas conforme os temas: “Metodologia Geral”, “Métodos Quantitativos”, “Métodos Qualitativos”, “Análise de eleições e voto”, “Teoria dos jogos e modelos formais” e “Outras técnicas e abordagens”. Mostrou-se que há bastante diversidade na oferta entre os programas.

A conclusão é de que houve um esforço para a superação desse “calcanhar metodológico”. As iniciativas dos programas foram nesse sentido. O artigo também destaca a existência de Eventos e Escolas Especiais de métodos, como a IPSA-USP Summer School e o MQ (FAFICH-UFMG).

Eles sinalizam que para entender a fundo a formação de novos pesquisadores é necessário investigar fatores como a construção do programa pedagógico dos cursos, a formação prévia dos docentes e a produção científica de professores e alunos, sugerindo então uma agenda de pesquisa sobre esse tema.

Vale a pena ler! Para ler o paper, clique aqui. .

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2 respostas em “Superando o calcanhar metodológico: o ensino de métodos em ciência política no Brasil

  1. Ainda estamos aquém de uma sociologia e uma ciência política cujo método quantitativo ocupe uma parte significativa das pesquisas. A FFLCH (USP) é um grande exemplo, há poucas disciplinas de métodos, os alunos ainda são avessos a números. A grande maioria dos professores se quer sabem utilizar PowerPoint nas aulas, quanto mais utilizar programas sofisticados, que cá pra nós é fundamental para pesquisa de ponta!

    • Olá,
      sobre a FFLCH (USP), posso dizer que conheço um pouco mais, pois fui aluno de uma disciplina de Métodos quantitativos na pós e monitor de uma na graduação.
      Postarei aqui no blog em breve um texto sobre a experiência do ensino de métodos lá. A ideia que me vem a cabeça é de que isso está mudando.
      Abraço

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